|
(08:02:13) RSJ: Tudo bem? |
|
|
|
(08:04:13) José Miguel Wisnik: Um boa noite geral, com o prazer de iniciar este bate-papo. Vamos falar de dois livros que estou lançando, um de textos ("Sem receita - ensaios e canções", pela PubliFolha) e outro de partituras das minhas canções ("Livro de partituras", pela Gryphus). |
|
|
|
(08:04:14) Zeno: como é que você consegue separar essas suas personas criativas na área escrita, para conseguir se professor, escritor e ainda ter a alma musical? |
|
|
|
(08:07:14) José Miguel Wisnik: Zeno, eu sempre quis ser escritor e músico, e essas coisas estavam separadas. Com o tempo, elas foram se ligando e ficando cada vez mais unidas. Talvez a ligação tenha sido possível porque eu tenho muito prazer tanto em dar aulas como em fazer música. Esses dois livros de agora são pra mim o ponto de encontro de tudo isso. |
|
|
|
(08:07:23) Baboo: Wisnik, por que esse nome "Sem Receita"? é o nome de uma canção também, né? |
|
|
|
(08:09:24) José Miguel Wisnik: Babbo,"Sem receita" é uma canção, que é uma parceria minha com Alice Ruiz, e foi gravada pela Ná Ozzetti no Cd "Pérolas aos poucos", no ano passado. O editor da Publifolha, Arthur Nestrovski, considerou que era um bom título para o livro, por muitas razões, mas principalmente porque nele se juntam muitas coisas diferentes, sem uma fórmula pronta. |
|
|
|
(08:09:35) Tuca: e aquela letra para o Chico Buarque? já saiu? |
|
|
|
(08:11:01) José Miguel Wisnik: Tuca, aquela letra para o Chico Buarque... só agora, depois de lançar os livros é que eu posso começar a pensar nela de verdade. Tenho nisso a cumplicidade do Chico, que já me disse que música e letra não têm prazo, e podem demorar horas, dias, meses, ou anos. Mas é claro que agora eu vou querer ir direto ao ponto! |
|
|
|
(08:11:07) Revoltado!!!: Há alguma razão para vc lançar os dois livros juntos ou foi concidência? |
|
|
|
(08:12:46) José Miguel Wisnik: Revoltado!, foi principalmente uma coincidência: a Publifolha tinha um projeto, e a Gryphus tinha outro, depois os dois acabaram se dando ao mesmo tempo. Pra mim foi uma espécie de "sincronicidade", porque juntou as pontas do meu trabalho sem eu ter buscado isso intencionalmente. |
|
|
|
(08:12:46) Pedrão: por que você demorou 15 anos sem publicar nada? |
|
|
|
(08:12:58) Pedrão: quem fez a seleção dos artigos? |
|
|
|
(08:14:54) José Miguel Wisnik: Pedrão, fiquei quinze anos sem lançar um livro novo, mas publiquei muita coisa nesse tempo: fiz três discos de canções, três trilhas para dança, duas para cinema, muitas para teatro, e escrevi muitos textos avulsos, que agora se juntaram num livro. Também sinto que tudo ajuda a gente a fazer e a gravar música, mas os tempos são difíceis para quem quer escrever livros no capricho. |
|
|
|
(08:15:08) Guto: Caro professor, qual sua opinião a respeito do ensino de música para crianças. Isso já foi projeto de lei, mas não vingou. Além de ampliar a cultura musical dos brasileiros, ter música nas escolas não seria também bom para o desenvolvimento de crianças e jovens? |
|
|
|
(08:16:43) José Miguel Wisnik: Ainda Pedrão: quem escolheu os artigos foi o Arthur Nestrovski, que é editor da Publifolha e também música, aliás um excelente violonista. Guto, acho que a escola tinha que trabalhar com música e formar as crianças com um repertório mais diversificado e mais rico do que aquele que elas conhecem necessariamente pela televisão. |
|
|
|
(08:16:44) Zeno: qual o prazer que você tem em dar aula? como você sente repassando valores culturais àqueles que querem absorver algo, mas ainda não sabem o que? |
|
|
|
(08:18:51) José Miguel Wisnik: Zeno, tive a sorte de ter ótimos professores, desde o primário, o ginásio e o colegial, e o prazer que eu sinto em dar aulas é parecido e completa aquele que eu tinha em assisti-los. Acho muito bom partilhar conhecimentos, dividir e multiplicar com outros. Acho também que é parecido com teatro e música. |
|
|
|
(08:18:58) Tuca: é verdade que vem um CD junto com o livro? |
|
|
|
(08:21:23) José Miguel Wisnik: Tuca, sim, o livro "Sem receita" traz um CD, que é a trilha do espetáculo "Nazareth", que eu fiz para o grupo Corpo de BH em 1993. A razão de estar no livro é que essas composições para dança, a partir da obra de Ernesto Nazareth, dialogam para mim, desde sempre, com um conto de Machado de Assis chamado "Um homem célebre". E no "Sem receita" tem um ensaio longo, que abre o livro, sobre este conto de Machado. Como o CD nunca foi comercializado, foi uma oportunidade de juntar os assuntos, e especialmente a música e a literatura, que são meus temas e minhas linguagens. |
|
|
|
(08:21:29) Baboo: é verdade que você, garoto, via o Pelé treinar no Santos, e que isso marcou sua vida? |
|
|
|
(08:23:27) José Miguel Wisnik: Babbo, vi muitas vezes o Pelé jogar na Vila Belmiro, quase todas as semanas. Ver o Santos Futebol Clube de Pelé e ao mesmo tempo tudo que tinha em volta, em Santos e São Vicente dos anos 60, do melhor futebol do mundo até o futebol de várzea, tudo isso me marcou, sim. Estou escrevendo agora um livro sobre futebol, a sair ano que vem pela Companhia das Letras. |
|
|
|
(08:23:34) Zeno: quais temáticas você costuma abordar em seus textos... como nos que estão organizados neste "Sem Receita"? você é ensaísta, poeta e o que mais? |
|
|
|
(08:27:11) José Miguel Wisnik: Zeno, o livro tem textos sobre literatura (Machado de Assis, Guimarães Rosa, Mário de Andrade) porque uma das coisas que eu faço é ser professor de literatura. Mas tem também muitos textos sobre canção popular no Brasil, que é uma forma de poesia (cantada) no Brasil, e que eu tenho feito como compositor. Tem também outros temas variados no livro, como amizade, a alma feminina, a adolescência, o teatro, etc. Em suma, é uma miscelânia que me descreve. Mas essas coisas todas, no Brasil, acontecem muito juntas. |
|
|
|
(08:27:11) Marta: Responda a uma pergunta imaginária, como se ela tivesse dado uma brecha para vc falar algo que gostaria de falar sobre seus livros. Um abraço. |
|
|
|
(08:30:20) José Miguel Wisnik: Marta, independente de eu ser isso ou aquilo, músico ou professor, ensaísta ou cantor, acho que todas essas coisas dizem uma coisa só. Quando eu não fazia todas elas, me sentia divido. Quando faço todas, me sinto um só. Isso é sem receita, não tem fórmula, dialoga com a poesia, a música, o futebol, e está sempre na verdade procurando uma brecha para existir, como essa que você me deu. Gracias. |
|
|
|
(08:30:26) Nicole: Como vc lida com a dicotomia de saber quea profissão de escritor no Brasil ,apesar de ser estigmatizada..tb ocorre de mitificar alguns ? |
|
|
|
(08:34:33) José Miguel Wisnik: Tudo pode ser mitificado hoje, a qualquer momento: basta existir e ser elevado a notícia. Escrever é também um desejo de fugir disso, porque escrever é uma oportunidade de sair das fórmulas prontas. Mas ao se mostrar, pode cair de novo na armadilha de virar algo mitificado. O livro de Chico Buarque, "Budapeste", é sobre isto e é isto. É engraçado que o meu livro também é sobre isto, a seu modo! |
|
|
|
(08:34:39) Kilkerry: Qdo virá um romance? |
|
|
|
(08:35:59) José Miguel Wisnik: Kilkerry, não está nos meus planos um romance, não. Tenho a tentação de escrever ensaios de ficção, mas não me imagino escrevendo um romance. Talvez quando ficar mais velho. E você, que adotou um nome de poeta? |
|
|
|
(08:36:05) FassbinderSP: Boa noite! Wisnik, como vc vê a idéia de "originalidade" emergir na periferia das grandes metropoles? |
|
|
|
(08:38:48) José Miguel Wisnik: FassbinderSP, a originalidade já emergiu na periferia de São Paulo, por exemplo, com o rap e uma nova literatura, fora dos canais convencionais. Acho que é uma força grande, e um dos acontecimentos do Brasil nos últimos tempos. Mas apareceu como surpresa, e não como fórmula pronta e obrigatória. |
|
|
|
(08:38:54) ZEUS: primeiramente o parabenizo pela grandiosidade da obra e gostaria de saber, que com[positores brasileiros mais o influenciaram em suas composições? |
|
|
|
(08:40:42) José Miguel Wisnik: Zeus, obrigado e nem mereço tanto, mas as minhas composições são influenciadas pelo musicos que eu toquei quando estudava piano, como Chopin e Debussy, mas também Jobim e principalmente Caetano, Chico Buarque, Gilberto Gil. |
|
|
|
(08:40:48) Nicole: como vc encara alguns conceitos estigmatizados de que o ato de escrever é puro diletantismo? eu sei que não é;;mas qual a tua opinião? |
|
|
|
(08:44:41) José Miguel Wisnik: Nicole, escreve-se por diletantismo quando se escreve para desabafar, para se distrair, sem outros compromissos. É válido e pode ser muito bom em si mesmo. Mas escrever para expressar e para enfrentar a linguagem e tudo que já foi escrito, para dar um textemunho (errei na ortografia e acertei em outro sentido) próprio e e auto-exigente, isso não é diletantismo. |
|
|
|
(08:44:47) Kilkerry: Ouvi vc falar uma vez em um fórum na Universidade de Brasília. Vc fez uma apologia do Doutor Faustus, do Mann... e disse que era necessário conhecer teoria musical para entender melhor o livro... Como é mesmo isso? |
|
|
|
(08:46:32) José Miguel Wisnik: Kilkerry, aquela palestra durou três horas, o livro tem centenas de páginas, e não é possível retomar isso agora! mas Thomas Mann era um escritor músico, e o livro é uma visão do século vinte e da Alemanha, durante a segunda guerra, através de uma espécie de biografia ficional de um compostor alemão. |
|
|
|
(08:46:38) Renata: como professor, o que você acha dessa linguagem "simplificada" dos adolescentes nos chats e blogs? |
|
|
|
(08:51:21) José Miguel Wisnik: Renata, os chats e os blogs são ligados ao imediato, ao instantâneo. Os meios de massa fazem parte de um mundo sem "mediações", onde tudo tudo aparece e desaparece agora. Como professor, sinto que isso não basta: é preciso livros, é preciso aprofundar, é preciso ir mais longe. Fazer essa ponte da internet com o livro é quase que a aposta chave da cultura hoje. E é também por isso que eu estou aqui e agora no aqui e agora desse chat. |
|
|
|
(08:51:27) Samuka: E ai Wisnik, blz ? Eu gostaria de saber o que vc pensa do atual cenário da poesia da literatura ? em relação a poesia estou um pouco mais otimista pois temos Manoel de Barros, Paulo Hecker Filho, entre outro. Mas é o Romance como fica ? |
|
|
|
(08:53:09) José Miguel Wisnik: Samuka, gosto de muitos dos poetas brasileiros contemporâneos. Além desses que você citou, cito Carlito Azevedo, Francisco Alvim, Antonio Cícero, Armando Freitas Filho e a lista é longa. No romance, não tenho identificado a mesma força. |
|
|
|
(08:53:09) Arrigucci: Neste seu livro sobre futebol o que será enfocado especificamente? |
|
|
|
(08:55:18) José Miguel Wisnik: Arrigucci, você é parente do professor de literatura e escritor Davi Arrigucci Jr., meu colega da Usp? No livro sobre o futebol abordo a tradição dos jogos de bola, a formação do futebol inglês, as diferenças do futebol em relação a todos os outros jogos, e a principalmente, a questão da apropriação diferenciada do futebol inglês pelo futebol brasileiro. O livro deve se chamar "Veneno remédio - o futebol e o Brasil". |
|
|
|
(08:55:24) Moonstarr: você é um pesquisador do formato da canção popular no Brasil? até onde já foi para descobrir os primórdios da MPB? o que descobriu de muito interessante nessa escavação? |
|
|
|
(08:58:43) José Miguel Wisnik: Moonstarr, a canção brasileira é que nem o Rio São Francisco: ninguém consegue ver a nascente primeira, o lugar onde tudo começa. Mas escrevi um ensaio sobre os primeiros momentos da canção popular urbana analisando o conto de Machado de Assis, no livro "Sem receita". Esse mês, a revista Teresa, revista da área de Literatura Brasileira onde eu trabalho, está lançando um número especial sobre literatura e canção no Brasil. O meu colega e parceiro, Luiz Tatit, escreveu vários livros sobre o assunto. Recomendo "O cancionista - composição de canções no Brasil" (Edusp) e "O século da canção" (cuja editora não me lembro agora. |
|
|
|
(08:58:49) VLAD: Zé fui presenteado pelo Lucci com o cd Nazareth ele é fantastico...pensei que nunca mais iria ouvi-lo...parabens |
|
|
|
(08:59:01) Aline: Oi, Zé Miguel. Soube que você vai lançar o seu livro no Espaço Musical na Vila Madalena. Só não sei o dia e o horário... Tem como informar? |
|
|
|
(09:02:26) José Miguel Wisnik: VLAD, é você, que gravou o Nazareth no estudio Camerati, em 1993, e que eu não encontro desde aquela época? GRande abraço, cara! Fiquei feliz também de ver o nosso disco podendo sair através do livro, já que ele foi produzido pelo grupo Corpo exclusivamente para o espetáculo deles, e não se encontrava nas lojas. E ALINE, o lançamento no Espaço Musical será no dia 13 de dezembro, às 20:30 horas. O Espaço Musical fica na rua Paulistânia, pertinho do lugar onde desemboca a rua Harmonia. Convido a todas para a conversa que termos, lá, sobre os livros, e sobre música. |
|
|
|
(09:02:38) Nega Fulô: Professor Wisnik Querido, qual é a sua opinião sobre o estudo literário nas Letras ficar resumido à discussão sobre o cânone? A academia é só o reflexo do nosso mundo caduco mesmo? |
|
|
|
(09:04:29) José Miguel Wisnik: Nega Fulô, sempre que posso fujo do chamado cânone, isto é, o estudo dos autores consagrados. Mas acho indispensável estudos Machado de Assis, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade. |
|
|
|
(09:04:35) princesa-cigana-24: quando é que um cara letrado como vc se sente "sem chão debaixo dos pés"? |
|
|
|
(09:05:35) José Miguel Wisnik: princesa-cigana-24, quando meu mundo cai, e quando estou levitando. |
|
|
|
(09:08:49) José Miguel Wisnik: obrigadíssimo a todos pela atenção e pelo interesse. E para quem se interessar mais, espero que aproveitem as viagens que estão propostas no "Sem receita", que pode ser lido de maneira salteada, conforme o gosto de cada um. E aos músicos, especialmente aos que tocam piano, convido para o "Livro de partituras".Grande abraço! |
|
|
|
(09:08:55) Moderador UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de todos os internautas. Até o próximo! |
|
|