Saiba mais:
• Regras e dicas de segurança
• Controle o que seu filho vê
ARQUIVO BATE-PAPO COM CONVIDADOS
Escolha por área: Ver as íntegras

Busque pelo entrevistado:
Categoria:
Ano:

BATE-PAPO COM
 
Convidado do site Mix Brasil, Roldão Arruda conversou sobre "Dias de Ira", um livro-reportagem que reconstitui assassinatos de homossexuais cometidos entre 1986 e 1989, em São Paulo. A obra descreve os crimes detalhadamente e fala sobre o principal suspeito, o michê Fortunato Botton Neto, também conhecido como "Maníaco do Trianon"

Participaram do Bate-papo 89 pessoas
Este-bate-papo ocorreu em 18/09/2001, às 17h00
 
     
 ÍNTEGRA
O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes
digitaram suas perguntas e respostas

 
 (17:00:11) Roldão Arruda: Boa tarde.

 (17:00:45) fd fala para Roldão Arruda: Boa tarde, Roldão! O que aborda o seu livro?

 (17:02:35) Roldão Arruda: fd, É uma grande reportagem sobre assassinatos de homossexuais, ocorridos em São Paulo entre 1986 e 1989. Foi um período em que houve um aumento da violência contra os homossexuais em todo o País.

 (17:02:54) leandro fala para Roldão Arruda: olá roldão. quantos foram esses assassinatos?

 (17:04:47) Roldão Arruda: Leandro, o meu livro trata de 13 assassinatos. Eles foram atribuídos a uma única pessoa, que entrou para a história da crônica policial da cidade como um serial killer. Mas o meu livro mostra que ele foi inventado pela polícia (e pela imprensa, indiretamente). Na verdade, existiam vários assassinos agindo naquela época.

 (17:04:50) adri fala para Roldão Arruda: Por que vc resolveu abordar este tema?

 (17:05:47) Roldão Arruda: Adri, eu vinha fazendo uma série de reportagens sobre direitos humanos, menores assassinados, mortes na periferia - e decidi tratar a questão homossexual sob o ponto de vista dos direitos humanos.

 (17:05:54) cris fala para Roldão Arruda: mas o assassino confessou só alguns dos crimes que lhe foram atribuídos, certo?

 (17:06:57) Roldão Arruda: Cris, na polícia o assassino confessou sete crimes. Foi condenado na Justiça por três. Mas ele sempre só admitiu um assassinato.

 (17:07:05) mmm fala para Roldão Arruda: Por que a polícia inventou este serial killer?

 (17:08:13) Roldão Arruda: MMM, não foi uma invenção propositada. Na verdade, houve uma pressão da sociedade e, por tabela, da cúpula da polícia, paa que se desse uma resposta à série de assassinatos.

 (17:08:15) rubens fala para Roldão Arruda: e por que houve uma série de assassinatos executados por pessoas diferentes na mesma época e depois os crimes diminuiram de ritmo? a que se deveu essa "epidemia" de homofobia?

 (17:09:53) Roldão Arruda: Rubens, essa "epidemia" estava relacionada à eclosão de uma outra epidemia em São Paulo: a epidemia da Aids, então uma doença desconhecida e atribuída principalmente aos homossexuais. Em vez de serem vistos como as primeiras vítimas dessa doença, eles foram julgados socialmente como culpados.

 (17:09:57) Orpheu/SP fala para Roldão Arruda: Boa tarde. A que atribui os crimes em si? Existe alguma caracteristica peculiar entre eles?

 (17:11:19) Roldão Arruda: Orpheu, eram todos homossexuais, na faixa de 40 a 60 anos. Eram homens solitários, que levavam vida dupla.

 (17:11:22) João Paulo Martin fala para Roldão Arruda: Foi uma investiogação difícil?

 (17:11:45) Roldão Arruda: João Paulo: A investigação da polícia ou a minha?

 (17:11:50) mmm fala para Roldão Arruda: Hoje, o caso é considerado encerrado?

 (17:12:04) Roldão Arruda: mmm, sim.

 (17:12:57) mmm fala para Roldão Arruda: Há pistas sobre quem foi o autor (ou autores) dos outros crimes?

 (17:14:02) Roldão Arruda: mmm, essa é uma das denúncias do livro: ao atribuir os crimes a Botton, a polícia deixou de correr atrás dos verdadeiros assassinos. Nunca foram localizados.

 (17:14:03) antunes fala para Roldão Arruda: Quanto tempo vc demorou para investigar os crimes e eescrever o livro?

 (17:15:45) Roldão Arruda: Antunes, comecei a me interessar pelo assunto na época da prisão do suposto serial killer, em 1989. Comecei a colecionar recortes. Em 1995 entrevistei o michê na prisão. Depois comecei a procurar parentes (que não quiserem me receber, na maior parte dos casos). Por fim, mergulhei em quase 3 mil páginas de inquéritos policiais e processos judiciais. Em 1998, finalmente comecei a escrever..

 (17:15:47) andrea fala para Roldão Arruda: Vc é reporter policial?

 (17:16:30) Roldão Arruda: Andrea, sou reporter da área de comportamento. Escrevo sobre religião, familia, aids, direitos humanos, ONGs...

 (17:16:33) mmm fala para Roldão Arruda: Além das vítimas serme homessexuais, quais eram as outras características comuns?

 (17:19:00) Roldão Arruda: mmm, como já disse, eram homens na faixa de 40 a 60 anos. Solteiros. Viviam afastados de suas famílias (muitos homossexuais se distanciam da família, para poder construir sua identidade sexual). Eram homens trabalhadores, com relativo sucesso na vida profissional. Um psiquiatra, um diretor de teatro, um executivo, um professor, um decorador, um eletrotécnico...os, que levavam vida dupla.

 (17:19:02) olavo fala para Roldão Arruda: roldão, vc sofreu ameaças por estar se metendo com esses crimes? se sim, de que tipo?

 (17:20:06) Roldão Arruda: Olavo, não recebi ameaças. Na verdade, fui hostilizado por pessoas que não queria ver esse tema abordado. Bateram porta na minha cara, desligaram telefone... Mas nenhuma ameaça.

 (17:20:28) LUHEN VEIGA pergunta para Roldão Arruda: ATÉ AONDE VC PRETENDE CHEGAR COM O TEU LIVRO?

 (17:22:01) Roldão Arruda: Luhen Veiga, se ele servir para ajudar a denunciar o preconceito, já terá sido uma grande coisa. Quando acabei de escrever, fiquei muito emocionado, revoltado, ao ver como a sociedade consente com crimes como esses. O subtítulo do livro é Uma história verídica de assassinatos autorizados.

 (17:22:05) mmm fala para Roldão Arruda: Qual foi a reação da polícia ao seu livro?

 (17:23:51) Roldão Arruda: mmm, antes de responder, quero dizer que o livro não critica a polícia de maneira genérica. Houve casos em que ela demonstrou uma espantosa capacidade de investigação. Não houve muita reação. Um dos delegados, o que se tornou um dos personagens centrais do livro, insistiu que eles se dedicaram muito ao caso - e que ele continua acreditando que Botton era mesmo um serial killer.

 (17:24:20) Eduardo fala para Roldão Arruda: De todos os crimes que vc trata no livro, qual vc acha ou achou mais chocante???

 (17:26:09) Roldão Arruda: Eduardo, todas as mortes foram cometidas de uma forma extremamente brutal. Todos me impressionaram. Alguns detalhes chamaram mais a atenção, como o fato de o psiquiatra ter sido estrangulado e esfaqueado. Parecia que o assassino não conseguia parar...

 (17:26:15) mmm fala para Roldão Arruda: Sobre características comuns, me referia à forma como foram realizados, não às vítimas

 (17:28:24) Roldão Arruda: mmm, a polícia, quando defendeu a idéia do serial killer, disse que eles foram cometidos de maneira semelhante. teria havido um "modus operandi" comum a todos eles. Mas eu demonstrei no livro que isso não existia. Apesar de algumas características comuns a quase todos, as variações de um para outro eram imensas. Em alguns casos, por exemplo. o serial killer teria agido sozinho. Em outros na companhia de um cúmplice. Em alguns teria roubado objetos da vítima, em outros, não.

 (17:28:32) luiz de oliveira fala para Roldão Arruda: Roldão, por que você afirma que os assassinatos foram "consentidos"?

 (17:30:23) Roldão Arruda: Luiz de Oliveira, digo isso porque houve uma demora muito grande na reação da sociedade. É o mesmo que ocorre com as chacinas registradas todas as semanas na periferia. Elas viram estatísticas. Mas quando se mata alguém de classe média, da classe alta, como no crime do Bar Bodega, a reação é imediata. Há um preconceito nesses casos: bom, se era homossexual, se estava envolvido com prostitutos, vai ver merecia morrer.... É um pré-julgamento.

 (17:30:35) Binho fala para Roldão Arruda: Olá Roldão, parabens pelo livro...algum outro projeto em vista?

 (17:31:54) Roldão Arruda: Oi Binho. Obrigado. Tenho alguns projetos, sim. Mas ainda não me defini de uma vez. Mas vou continuar nessa linha investigativa, de denúncia das violações dos direitos humanos.

 (17:31:59) Luiz e Denise fala para Roldão Arruda: Roldão, houve alguma familia das vítimas que se interessou em suas investigações ou mesmo tenha contribuido de alguma forma efetiva?

 (17:33:32) Roldão Arruda: Luiz e Denise, houve sim. Dois irmãos, que se recusaram no início a falar comigo, acabaram aceitando conversar (após algumas tentativas). Neusa e Licínio (os nomes deles) me deram depoimentos emocionantes, esclarecedores....

 (17:33:34) luiz de oliveira fala para Roldão Arruda: Quanto tempo você levou para realizar toda a investigação. E o que te motivou a realizar este projeto?

 (17:34:54) Roldão Arruda: Luiz de Oliveira, comecei a me interessar pelo assunto na época da prisão do suposto serial killer, em 1989. Comecei a colecionar recortes. Em 1995 entrevistei o michê na prisão. Depois comecei a procurar parentes (que não quiserem me receber, na maior parte dos casos). Por fim, mergulhei em quase 3 mil páginas de inquéritos policiais e processos judiciais. Em 1998, finalmente comecei a escrever

 (17:35:41) heindrich fala para Roldão Arruda: Boa tarde, Roldão! VC ACHA QUE ESTES CRIMES SÃO TRATADOS COM DESCASO PELA POLÍCIA???

 (17:37:37) Roldão Arruda: Heindrich, acho que a polícia reflete o comportamento geral da sociedade. Existe uma espécie de ditado no meio policial, entre investigadores, que é o seguinte: alguns cadávares fedem mais que os outros. Isso quer dizer, que alguns crimes são investigados de forma mais apurada que outros. O livro descreve várias situações que mostram essas diferenças. Relato casos que não são relacionados diretamente aos crimes contra homossexuais, para exemplificar, possibilitar uma compreensão melhor...

 (17:37:46) ivan fala para Roldão Arruda: Roldão, o quanto vc acha que atrapalhou seu livro o fato de os familiares não te receberem?

 (17:40:21) Roldão Arruda: Ivan, a proposta inicial era construir o livro a partir dos depoimentos dos familiares. Como a maioria recusou, decidi trabalhar com os inquéritos policiais e os processos. Acabei ganhando muito com isso. Além de descobrir que não existia um serial killer, pude desvendar o modo de ação policial, ver como o preconceito está enraizado também no judiciário... E lá, no meio de toda aquela papelada, também pude descobrir como as famílias se relacionavam com as vítimas.

 (17:40:24) kadu fala para Roldão Arruda: Vc acredita que a sociedade ainda vê o homossexual como um ser de outro mundo ou transmissor de doenças? existe esse preconceito?

 (17:41:41) Roldão Arruda: Kadu, a situação mudou muito de lá para cá... A sociedade, para enfrentar epidemia de Aids, foi obrigada a buscar entender melhor o comportamento dos homossexuais. Mas o preconceito ainda é forte. Homossexuais ainda são assassinados.

 (17:41:49) Binho fala para Roldão Arruda: vc tem conhecimento de novos casos de assassinatos de homossexuais com as característica iguais às que vc relata no livro?

 (17:43:15) Roldão Arruda: Binho, homossexuais ainda são assassinados. Mas a reação da sociedade tem sido maior (veja no caso do Edson Neris, morto por um grupo de skinheads em São Paulo.). Mas, infelizmente, mortes com aqueles requintes de violencia ainda ocorrem.

 (17:43:58) Luiz e Denise fala para Roldão Arruda: Mudando um pouco a tônica em questão, gostaria de saber qual é a sua visão diante dos acontecimentos ocorridos nos EUA, sua politica internacional?

 (17:45:56) Roldão Arruda: Luiz e Denise, o terror é abominável. Quanto a política internacional dos Estados Unidos, tenho restrições. Mas o espaço é muito limitado para falarmos disso agora.

 (17:45:59) Camargo fala para Roldão Arruda: Boa tarde, não li seu livro a gostaria muito de posder fazê-lo. Sou bastante apático às causas de homossexuais, porém, mantenho o respeito com tais pessoas, mas em sua opinião, não acha que as cisrcunstâncias dos crimes não levaram ao desfecho, ou seja, a grande manutenção dos homossexuais em manter vários parceiros, sem nenhuma precaução? a

 (17:47:45) Roldão Arruda: Camargo, seria interessante se você lesse o livro para entender melhor o assunto. Ter vários parceiros não é uma característica exclusiva dos homossexuais. O que acho intrigante, de verdade, é o fato de muitos deles se exporem a situações de risco. Mas eu pergunto: não é a sociedade que os empurra para isso?

 (17:48:09) Binho fala para Roldão Arruda: Aproveitando que a denise e o Luiz deram um corte na conversa,, vou dar outro(risos)...a que vc atribui o crescente aumento da violência urbana, além dos aspectos sócio-econômicos, já tão alardeados...o que tem além disso?

 (17:50:00) Roldão Arruda: Binho, temos uma sociedade muito doente, onde só tem valor quem consome, quem tem dinheiro... Acabo de vir de uma visita à Febem, para uma reportagem, e fiquei impressionado com os garotos que estão lá, com suas vidas desperdiçadas... Penso: será que muitos não foram levados ao crime pela ânsia de obter dinheiro fácil e assim se tornar gente, no sentido apregoado por essa sociedade.

 (17:51:32) Roldão Arruda: Nosso tempo esgotou. Gostaria de dar boa tarde a todos, agradecer ao Mix Brasil, ao Uol, Livraria Futuro Infinito. E, finalmente, uma recomendação: leiam o livro. Foi escrito num estilo policial, fácil de ler - com o objetivo de ajudar a entender melhor a questão. Obrigado. Abraços.

 (17:51:36) Adriana de Barros/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Roldão Arruda.